De volta depois de muito tempo sem publicações, mas nunca sem escritos, resolvi mexer naquele arquivo morto, aquele que você encontra umas angústias, hoje já bem resolvidas e decide que é hora de publica-las...
O que ficou de você, o que fica, o que sempre fica.
Ao
passar pela sua casa, ainda tinha vontade de bater na porta, pedir pra entrar e
usufruir do seu lençol cor de vinho. A vontade de te fazer aquelas surpresas do
meio da semana, se amontoavam no banco de trás do meu carro, junto com as coisas
que compro e só depois de perceber que não tinham mais sentido.
Algumas
mensagens ficaram sem resposta, e eu me via apegada a hipótese de que você
ainda não tinha acordado do sono interminável do dia, mesmo que fosse sábado à
noite.
Ja faz tempo que não verifico o meu celular, esperançosa por um dos seus “bom
dia!”, que variavam de acordo com o seu humor canceriano.
Sabe
uma coisa que me faz falta? A massagem que suas palavras, mesmo eventuais,
faziam em meu ego, sob o teu olhar inebriante e os teus olhos embebidos num
desejo experimentado pelo meu corpo a instantes.
Eu
me despi, também, de todo orgulho, de todos os problemas, e acredite, tentei
não querer nada em troca.
Todo
aquele sentimento reprimido pela fortaleza que eu deixava transparecer me traiu
e me tirou do rumo que eu pretendia seguir. A sua satisfação ao perceber toda a
“sinceridade” escancarada, revelando uma falsa superficialidade, me trazia a
sensação de controle da situação, quando percebi que era só impressão, foi
irreversível.
Se
foi só desejo, se foi paixão, loucura, amor ou algo do tipo, ainda não sei, mas
do que adianta, meu bem, se essas palavras nem serão lidas por ti? E se lidas, já
não terão os meus significados, já pertencem ao meu arquivo morto.
Enquanto
tenho afeto, de fato, acredito que naquele momento a superficialidade me
bastava, entendo que devo viver o momento, não penso em consequências, apesar
de saber do nosso prazo de intensidade. Eu te disse que saberia a hora de te
deixar, de pedir “dois altos”, de partir para refazer-me, só disse, sempre
digo.
A
satisfação, o prazer, a espontaneidade dos nossos encontros foi me fazendo
querer ficar, repuxar, prolongar a nossa pseudo relação. Eu me passei do
momento exato que deveria transformar o vazio em lembranças, então você foi embora
antes da minha decisão e quase que forçosamente a falta me traz memórias que
fazem bem, assim como você fez um dia.
Não
tenho mais notícias suas, como de costume, a partida me traz inspiração e a
insônia de hoje é diferente da que já tive ao seu lado. A comodidade de te ter
por perto me fazia achar bem mais poético os seus braços interrompendo o texto
que tentava construir enquanto dormia inquieto, o que me fazia desistir e aproveitar
um pouco mais de você, do seu corpo e do seu aconchego.
Talvez
o meu exagero é sempre ser tão “eu”, “ser eu” inteira, “ser eu” intensa, “ser
eu” amante, “ser eu” pra tudo, querer preencher muitos espaços, querer fazer o
bem, a toda hora, mesmo distante, mesmo sabendo dos prazos, das validades, da
efemeridade. Acredito que justamente por saber, dou o que tenho em mim, faço o
que posso, faço a minha parte, faço toda a parte.
Agora
o orgulho me chama à realidade varias vezes, mas só no último suspiro segura os
meus impulsos mais iminentes e me apresenta novamente ao amor próprio.
Esse
não foi o primeiro dos términos não começados, não foram as primeiras
expectativas não alcançadas, não foram os primeiros acenos sem respostas e sei
que não serão os últimos.
O
que restou? Portas abertas, alma tranquila, gratidão pelos momentos bons.
Aprendizado não sei se é a palavra, pois não tomo um acontecimento como exemplo
para não mais tentar, não tomo como justificativa para temer outros
envolvimentos, não sei ser pela metade, não sei escolher entre corpo e alma, ou
os dois, ou não vale. Quando me proponho a tentar alguma coisa, me proponho
zerada, refeita, com lembranças, mas sem feridas, inteira.
Os
trajetos que tracei até aqui foram guiados prioritariamente pela emoção, pelos
meus sentimentos, pela coração. De fato, são escolhas mais dolorosas, menos
precisas eu diria, mas o meu temperamento sentimental, remonta todo o meu
percurso desse jeito e mesmo quando o carnal parece falar mais alto, o coração
suspira insistentemente até ser ouvido.
Jasmim
Fernandes, 12 de setembro de 2013.